Ele nunca gostou de cachorro. Nem de gato, nem de passarinho, nem de ramster. Mas de cachorro, ele tinha pavor. Contou a ela que fora mordido por um Chiuaua aos 7 anos e isso o traumatizara pra sempre. Quando ela tocava nesse assunto, ele logo levantava a manga da camisa e mostrava a cicatriz que aqueles pequeninos dentes haviam deixado em seu braço.
-Não, não e não!
-Ah amor, vai te fazer bem. Quem sabe agora vc destraumatiza. Olha só que coisinha linda. Moça, quero aquela branquinha...isso mesmo, a de focinho vermelho. Amor, vai se chamar Matilde.
E ele preencheu o cheque!
Esbarraram-se anos depois, por acaso, no parque Villa-Lobos:
-Oi....quanto tempo - disse ela.
-Nossa, você.... - disse ele na tentativa frustrada de esconder a supresa. Depois de todos esses anos ela ainda conservava o sorriso e a beleza de antes. Os cabelos estavam mais curtos e mais escuros. Será que já possuia fios brancos? Ela jurou que só pintaria os cabelos quando os primeiros fios brancos viessem lhe dar bom dia.
-Olha a Matilde....cresceu!
Rindo ela disse- Você não tem mesmo jeito com bichos....esse é o Boris, filho da Matilde, é macho.
-Macho, claro.......ai, que horror! só conseguia deixar a situação ainda mais embaraçosa!
- A Matilde ficou em casa. Está com catarata. A propósito, esse é o Eduardo, meu marido.
“Marido?” como assim ela tinha um Marido? E a tal liberdade, a vontade de conhecer o mundo, viajar, ter outras experiências? Onde foi que ela guardou todos os sonhos, desejos e planos em que ELE não fora incluído?
Trocaram mais algumas palavras tolas e ele continuou seu caminho. Com um aperto enorme no peito, ele repetiu a si mesmo: “Pobre Matilde....tem catarata!”
domingo, 8 de novembro de 2009
METRÔ
Ela aproximou-se da plataforma ao ver o trem que chegava. As portas se abriram mas ela não entrou. Ficou ali parada, pequena diante da imensidão da plataforma.
O segundo trem se aproximou, abriu as portas, mas ela continuou ali, imóvel.
Após a partida do quarto trem, ela consultou o relógio do celular. Mordeu os lábios, ensaiou alguns passos em direção à saída e recuou. Ainda esperou pelo quinto, sexto, décimo trem. Pôs a mão no pescoço, ajeitou os cabelos e percebeu que ele não viria mais. Entrou no vagão seguinte e partiu sozinha, ao lado de milhares de pessoas igualmente sozinhas.
O segundo trem se aproximou, abriu as portas, mas ela continuou ali, imóvel.
Após a partida do quarto trem, ela consultou o relógio do celular. Mordeu os lábios, ensaiou alguns passos em direção à saída e recuou. Ainda esperou pelo quinto, sexto, décimo trem. Pôs a mão no pescoço, ajeitou os cabelos e percebeu que ele não viria mais. Entrou no vagão seguinte e partiu sozinha, ao lado de milhares de pessoas igualmente sozinhas.
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